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:: Sexta-feira, Novembro 28, 2003 ::
MILEIDES >>> Uma História de Sucesso
Rock and roll e muita diversão na estranha e recente história do MILEIDES. As dificuldades, os atalhos e as loucas inspirações no caminho para o sucesso dos altos, belos e ilustres primos Ferrari, Celsão e Marcelo, que surpreenderam o mundo com sua música sincera e explosiva. d:-D
:: MaRRRcelo Urânia 15:42 [+] ::
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==== Capítulo 1 ====
"- Não é possível. NÃO É POSSÍVEL!" - gritou Marcelo, antes de jogar sua guitarra no chão. "- A gente está aqui há três horas e não acertamos uma música. Como a gente vai tocar na Pedreira sábado?"
O desespero de Marcelo fazia sentido. Era quinta-feira e o Mileides lutava com todas as forças para se acertar. A tranqüilidade dos tempos de "Mega Drive Song" ia longe e a banda passava por vários problemas. Pra piorar, a parceria com José Ferreira e Miguel Roberto Ferreira, grandes nomes da cena sertaneja, na letra de "Caos Interior", poderia ser mal recebida pela crítica. A banda corria o risco de acabar dois dias antes de abrir pra White Stripes e Weezer, naquele Curitiba Pop Festival de 2006 que seria o show de suas vidas. A brilhante mistura de grunge e britpop que nascera no Brasil estava ameaçada.
"- Mais uma vez, agora vai!" - gritou Ferrari, antes de começar a tocar "Optimistic", do Radiohead, sozinho em seu baixo. Mas faltava aquele feeling, aquele tesão de começo de banda. No final do dia, as produtoras, empresárias da banda e conselheiras sentimentais Patrícia Ferreira e Meliza Ferreira passaram pelo estúdio para ver como seus garotos estavam indo. "Tenho o maior orgulho dessa banda", pensou Meliza. "Caos Interior" vai ser o compacto da semana do NME e vai ofuscar o novo do Coldplay. Não tem porque fugir disso."
No entanto, não era a banda que gravaria o compacto da semana do NME que elas encontraram ensaiando. Ocorria uma troca de palavras sem decoro entre os membros do Mileides, algo que nunca presenciaram. Não faltaram gritos de "sidney magal", "pelado", "fedido", "braz" e "minâncora", além de termos mais pesados. No final, o baixista e vocalista Ferrari foi enfático em suas palavras dirigidas à Patrícia e Meliza: "o Mileides acabou". Patrícia fez com a cabeça que não, chamou a banda pra tomar umas no boteco ao lado do estúdio, pediu cinco cervejas e olhou o trio fixamente:
"- Gente, por favor. Cadê aquela banda visceral que me faz dançar sem parar?"
"- Crise, guria. Não temos mais o que fazer juntos." - disse Marcelo, sem meias-palavras, engolindo a cerveja ruidosamente. "- Esses caras só querem saber de enrolar. Vou fazer o teste pra Bidê ou Balde agora!"
"- Que Bidê ou Balde o quê, Marcelo! Você não vai sair do Mileides porra nenhuma!"
"- Tarde demais. Já comprei meu terninho e meus sapatos sociais."
"- Devolve na loja. Diz que ficou pequeno!"
"- Acabou, Patrícia. Eu e a Priscila vamos pra Goiânia montar um projeto eletrônico com vocal feminino e trabalhar na área de relações públicas de alguma gravadora de lá. Além de produzir os shows do Leonardo." - disse Celsão, matando seu copo de cerveja.
"- Não é possível. NÃO É POSSÍVEL!" - e Patrícia deu um tapa na mesa, deixou uma nota de 10, chamou Meliza e foi embora. Um a um, os Mileides foram saindo depois, até ficar apenas Marcelo. Sentado naquele bar de São Paulo, ele via o sonho de sua guitar band desmoronar. No outro dia era passar no estúdio, pegar os instrumentos, e voltar pra Urânia.
E assim Marcelo acordou cedo no dia seguinte, tomou quatro canecas de café e foi buscar sua guitarra no estúdio. Chegando lá, começou a lembrar da discussão do dia anterior. Essas coisas dóem. Sentou-se e tentou tirar "St. Louis", do Blur, quando um dos amplificadores caiu. Ao levantá-lo, viu uma portinhola na parede, atrás de onde o amplificador ficava. A curiosidade tomou conta de si: não resistiu e abriu-a. Dentro havia uma luz azul, que lhe trazia uma sensação de déja vu. A luz o hipnotizava, e assim Marcelo adentrou a portinhola e foi até a luz.
:: MaRRRcelo Urânia 15:40 [+] ::
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==== Capítulo 2 ====
Quando estava bem perto da luz azul, Marcelo caiu, desmaiado. Ao acordar, ouvia um barulho ensurdecedor: uma distorção contínua, que não lhe deixava outra escolha a não ser tapar os ouvidos com as mãos, para não perder a audição. Tudo era azul, ondulado e havia várias vias, sem nenhuma indicação do que poderia ser. Em uma das vias encontrou um bebê sentado, nu, flutuando. Onde Marcelo estaria? Olhou para o relógio e eram duas da tarde em ponto, quatro horas a mais do que quando estava no estúdio. Andou por vários lugares, sem rumo, fugindo daquele estranho bebê que o amedrontava, enquanto procurava descobrir aonde ouvira aquela distorção. Até que, num estalo, pensou: "Meu deus! A capa azul, a distorção, o nenê peladão... caralho! Isso é o Nevermind, do Nirvana!", e arrepiou-se. Seguindo por uma via dupla, pode ver, através de duas janelas redondas, algumas imagens que faziam sentido. Viu uma mulher, de pouco mais de 20 anos e cara de baranga. E ouviu-a dizer "Bye, Kurt", no que ouviu, num volume ainda mais alto, a resposta: "Bye, Courtney". Kurt Cobain e Courtney Love, o casal vinte do grunge de Seattle? Sentiu uma colisão. "- Não, não é possível: é um beijo dos dois!", e Marcelo sentiu seu coração disparar.
Assustado, correu pra longe dos olhos de Kurt, até chegar a um ponto onde a distorção era insuportável e onde via guitarras, pedais e amplificadores por todos os lados. Ficou lá, sentado, esperando tudo passar, até que desmaiou novamente. Quando acordou, estava em frente à loja de cd¿s e artigos rock "S & V", próximo à Galeria do Rock, em São Paulo. Olhou no relógio: exatamente 10 horas e 42 minutos daquela sexta-feira. Não entendia o que tinha acontecido. Entrou na "S & V", cumprimentou os presentes, levou o "One by One" do Foo Fighters e tudo que ainda não possuia do Nirvana, pagou e saiu, atormentado.
De metrô, voltou ao estúdio. Havia uma mancha azul no chão. Mas Marcelo não podia ter voltado em pior hora: seus primos e ex-companheiros, Celsão e Ferrari, estavam lá, e uma nova discussão era iminente. No entanto, algo o tomou de repente: plugou a guitarra num amplificador e falou, assustado: "- Caras, vejam isso, eu acabei de compor." - e tocou um riff. Um riff, não: O RIFF. Era algo sensacional, cheio de sentimentos e noise, e era apenas uma frase instrumental!
Seus ex-companheiros de Mileides ficaram atônitos: Celsão que passou a noite querendo quebrar as baquetas na cabeça de alguém, foi à bateria e começou a acompanhar. Não demorou muito e Ferrari estava tocando junto com os dois. A letra surgiu em questão de minutos. Depois de seis ensaios consecutivos, todos frutíferos, perceberam que tinham algo poderoso nas mãos. Marcelo então puxou mais oito riffs maravilhosos, e o Mileides ficou ensaiando até as 11 da noite. Não sem antes ligar para as patroas:
"- O Estado de São Paulo, boa noite."
"- Meliza?"
"- É. Quem é, Marcelo? Ô moleque, por favor, fala com o pessoal da banda, tudo não pode acabar assim..."
"- Não vamos acabar! Escuta isso!" - e Marcelo colocou a fita com a primeira canção surgida naquela tarde. Depois que a música terminou, completou:
"- E aí Meliza, ficou legal, né?"
Meliza estava atônita, havia colocado no viva-voz para que Patrícia também ouvisse.
"- Legal? Cara, tá muito do caralho. É a música mais perfeita que eu já ouvi na vida. Isso é Pixies. Não, é Smashing. Não, não, caramba! É b-side do REM! Putz, vocês estão do caralho!"
"- Fizemos nove músicas hoje. Amanhã vai ser o début, no Curitiba Pop Festival."
"- Ai cara, grava pelo menos 200 cd-rs pra vender amanhã. Garanto que vai vender tudo e ainda vai ter gente querendo!"
"- Não dá tempo de fazer 200, guria, temos quatro horas de viagem até Curitiba."
"- Ah, faz o quanto vocês puderem!!! Caralho, mal entramos no Estadão e agora vamos ser empresárias do novo Strokes!" ¿ gritaram as duas pelo viva-voz.
Marcelo emudeceu. Depois de alguns instantes, perguntou:
"- Novo Strokes? Que história é essa?"
"- É, ué. Agora sim, achamos the next big thing do rock and roll!"
:: MaRRRcelo Urânia 15:39 [+] ::
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==== Capítulo 3 ====
No outro dia, Meliza e Patrícia bem que tentaram colocar o Mileides como headliner do Curitiba Pop Festival. Mas os gringos chiaram, e assim a escalação foi a mesma: Mileides abre, White Stripes vem depois, Weezer fecha a noite. No backstage improvisado em uma das salas na Pedreira, o comentário era de que todos da família, até a avó dos garotos, D. Melcina, iriam rebolar felizes com as novas composições.
E assim, às dez e meia da noite, uma orgulhosa Patrícia pegava o microfone e anunciava:
"- Cúúúúúúúúúúúúúú!"
Com a atenção do público, ela emendou:
"- Com vocês, o casamento perfeito de melodia, timing, distorção e visceralidade: MILEIDES!!!"
E o show começou. Em onze músicas, a banda calou a boca de todos os seus críticos. A platéia assistia, embasbacada, àquela seqüência de canções com riffs maravilhosos, refrãos marcantes, muito punch e carisma dos meninos. Quarenta e dois minutos depois do começo do show, tudo acabava. O público aplaudiu por cerca de dez minutos, e logo depois da salva de palmas, formou-se uma fila para comprar o novo disco do Mileides, composto pelas nove novas canções e duas velhas conhecidas: a instrumental "Quero ser cool" e sua versão com letra, "Foda Song". As cento e noventa e nove cópias foram vendidas, e outras oitenta e oito pessoas deixaram seus nomes e pagaram antecipado pelas cópias. White Stripes e Weezer, quem?
Álvaro Pereira Júnior, da Folha de São Paulo, foi o crítico que melhor definiu a catarse promovida pelo Mileides, em resenha publicada dois dias depois:
"Goiabices à parte, o Mileides fez um show memorável no Curitiba Pop Festival do último sábado. O baterista Celsão parecia incorporar Keith Moon, o mito do The Who, enquanto a banda apresentava um conjunto de canções que credencia seu novo disco a figurar entre as grandes obras do rock and roll, como o Álbum Branco, Blues for the red sun e Guerrilla."
E a banda entrou novamente em estúdio, para gravar mais dezessete canções. No fim do dia, Ferrari e Celsão apertaram Marcelo contra a parede:
"- Marcelo, me conta uma coisa: de onde você tirou inspiração pra fazer essas músicas?"
"- Caras, eu preciso mostrar a vocês." - afastou o amplificador e mostrou a portinhola. Pediu pra que eles entrassem, entrou em seguida e fechou a mesma. Num instante, todos foram sugados e acordaram num mundo com uma luz azul ondulada e uma distorção insuportável. O estranho mundo da inacreditável atividade cerebral do falecido Kurt Cobain. Marcelo levou seus companheiros de banda para um passeio na mente do perturbado guitarrista e vocalista, mostrando-lhes cada centímetro do local. Puderam ver Kurt em seu quarto, escrevendo em seu diário, contemplando seus discos de mod e sua coleção de vídeos eróticos. No final, levou-os à sala das guitarras, onde o noise era maior. Todos sentiam uma inspiração e uma paz interior, como se tivessem fumado todo o estoque de maconha que adentrou na Cidade do Rock do último Rock in Rio. E depois de quarenta e dois minutos de delírios cerebrais alheios, voltaram para a porta da "S & V", onde compraram a discografia do Nirvana e foram embora. No estúdio, três manchas azuis surgiram no chão.
Uma semana e meia depois, um telefonema foi dado:
"- O Estado de São Paulo, bom dia."
"- Bom dia. Por favor, eu poderia falar com a Meliza ou com a Patrícia?"
"- Patrícia falando. Quem é?"
"- Aqui é o Kid, Patrícia."
"- Aaaaah... e aí, cara? Tudo bem?"
"- Porra, tu tem uma banda e tanto no teu cast, hein? Não quer vender o passe deles pra Trama?"
"- Eu bem que gostaria, mas..."
"- Mas?"
"- Mas..."
"- Mas mas mas o quê, Patrícia?"
"- Acabei de vendê-los pra Parlophone, bicho. Eles vão ser lançados no Reino Unido!"
:: MaRRRcelo Urânia 15:39 [+] ::
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==== Capítulo 4 ====
Dito e feito. Um mês depois, "Caos Interior", primeiro single do disco "Adulto Verde", era eleito "Single Of The Week" pelo New Musical Express. A revista Rolling Stone se precipitou e colocou uma fotomontagem do Mileides pisoteando os Strokes em sua capa, além da seguinte chamada: "Tudo o que Rubens Barrichello não fez na Ferrari o Mileides vai fazer no meio musical". "Caos Interior" foi direto para o primeiro lugar das paradas de singles da Record Retailer e, quando lançado nos EUA, fez o mesmo na Billboard. No Brasil, num fato sem precedentes, a EMI lançou o single, que era vendido pelos lojistas a preço de álbum completo, mesmo tendo apenas três faixas, e o disco alcançou o primeiro lugar nas paradas informais.
Quando "Adulto Verde" saiu, o Mileides já era unanimidade. Aclamado em massa pelos mesmos críticos que achavam ruim que exibissem suas experiências juvenis e seu amor pelo Palmeiras, amado pelos clubbers, pelos manos, pelas patricinhas, pelos amantes do futebol, e até pelo pessoal que come língua de boi empanada. "Quem não gosta de Mileides, bom sujeito não é", dizia o jargão de uma famosa cadeia de rádios nacional. E a banda embarcou para uma tournée européia, que seria seguida por uma americana, uma asiática e a grande consagração, na turnê brasileira, com 35 datas.
E por todo o Brasil, pipocavam bandas mesclando o noise do grunge e a melodia do britpop, que tentavam imitar o trio ao máximo. Usavam os mesmos pedais de distorção, faziam o mesmo estilo de som, tomavam a mesma marca de cerveja, torciam pelo Palmeiras e mandavam suas demos para as mesmas Meliza e Patrícia. Soterradas no meio de tanto cd-r, as donas do bar mais cool de São Paulo, o Jalânia, e editoras do Caderno 2 do Estadão, colocaram em seu site um aviso, pedindo pra que parassem de lhes enviarem demos, pois elas não estavam preparadas pra mexerem com uma cena indie-noise-britpop-grunge tão boa. Dois dias depois, foram internadas, com estafa.
No entanto, nenhuma das novas bandas ("Brasil, o país do noise", derretia-se o NME) possuía a qualidade sonora dos agora astros internacionais do Mileides. E mais gente ficou querendo saber qual era o segredo da banda. Certo dia, ouviu-se um diálogo estranho na antiga FACIP, agora FIRIJ (Festival Internacinal de Rock Independente de Jales):
"- Meu, não sei de onde o Mileides tira essas músicas. Não faço idéia. E você?"
"- Não sei também. Mas Bicho, desencana dessas idéias. O importante é que a banda é boa. E meu cabelo, tá bom?"
"- Tá legal, tá legal. Só que esse sucesso todo do Mileides me deprime."
"- Ah, relaxa. Bem melhor do que se tocasse Creed ou Jota Quest nas rádios, não acha?"
"- É, pelo menos isso, vai."
E com o passar dos tempos, a curiosidade em torno do segredo do Mileides aumentava. Até que os rapazes, dez meses depois, voltaram triunfantes da excursão internacional. Depois de finda a tournée brasileira, iriam gravar o novo disco e tirar férias antes do segundo lançamento. Nos estúdios, em São Paulo, nada parecia ter mudado desde a descoberta daquela portinhola. Havia apenas alguns familiares, amigos e poucos fãs, pra cobrir os primeiros dias de atividade. Muito solícitos, Celsão e Marcelo concediam entrevistas, enquanto Ferrari saía pra comprar vodca, açucar e limão. Até que, num belo dia, para fazer contato com Kurt Cobain novamente, a banda pediu pra que todos os curiosos se retirassem. Mas um deles se escondeu embaixo da mesa de controle central e ficou espiando o trio entrar no mundo do messiânico guitarrista e vocalista do Nirvana. Ouviu uma conversa sobre "vamos voltar ao que nos inspira" e concluiu, marotamente: "Ah é, é?"
O curioso esperou uma hora inteira e nada da banda voltar. Decidiu entrar por conta própria na portinhola e também se embasbacou com tudo aquilo. Tentou chamar a atenção de Kurt, mas não conseguia. De tanto pular, o máximo que conseguiu foi fazer o loiro magricela regurgitar seu almoço à base de peixe, batatas fritas e ovos. E quarenta e dois minutos depois de entrar, foi expelido de seu cérebro, indo parar na porta da "S & V". Querendo parecer roqueiro, perguntou do lançamento do The Calling, e foi sumariamente expulso pelas donas da loja, Stephanie e Vívian.
Depois, a banda voltou ao estúdio, para continuar as gravações, e percebeu quatro manchas azuis no chão. Quatro? Mas foram apenas três pessoas que entraram...
"- Celsão, você tá comendo muita feijoada, tá deixando duas manchas no chão!" - disse Ferrari, tomando uma long-neck.
"- Não, cara. Eu tô de boa, nem comi nada hoje" - respondeu.
"- Se não foi você... foi algum intruso. Quem pode ter entrado aqui?" ¿ Marcelo resmungava.
"- Eu." - e uma quarta pessoa apareceu no estúdio.
"- O cara do Kaip Country!" - disseram, em uníssono, os três Mileides.
"- Isso mesmo. E agora vou foder vocês, vou dar uma entrevista coletiva pra Folha de São Paulo contando tudo! E voltarei a fazer minhas festas poeirentas em algum sítio da região de Jales¿ Há-Há-Há-Há." - e saiu, correndo. A banda ainda tentou alcançá-lo, mas era tarde.
:: MaRRRcelo Urânia 15:38 [+] ::
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==== Capítulo 5 ====
Três dias depois, um telefonema às oito da manhã acordou Marcelo:
"- Marcelo, do Mileides?"
"- Uuaaahhmmmmm... é, sou eu. Quem tá falando?"
"- Aqui é Fernanda Lima, da MTV. Tudo bem?"
"- Fala Fer, que surpresa! Tudo certo, e contigo?"
"- Vai ficar melhor agora. Escuta, você TEM que me levar até o cérebro do Kurt Cobain. Eu sou muito fã do cara."
"- Hein?"
"- Isso mesmo. Pago qualquer coisa."
"- Qualquer coisa mesmo?!? Hummm¿ Bah, esquece o que eu falei¿Como você sabe da passagem?!?"
"- Não leu a ¿Ilustrada¿ de hoje?"
"- Não. Aquele coxinha publicou isso?!?"
"- Que coxinha?"
"- MALDITO!" - e Marcelo bateu o telefone na cara de Fernanda. Levantou-se e foi checar seu email particular. 285 novas mensagens, de músicos renomados e de jornalistas do Brasil e do Reino Unido, todos pedindo credenciais pra entrar na cabeça de Kurt. Marcelo não sabia o que fazer. Ligou para o Estadão atrás de Meliza ou Patrícia. As patroas tinham que saber o que fazer:
"- Então, Meliza, é isso. Graças ao cara do Kaip Country, a coisa tá enorme."
"- Meu Deus, você nem pra me dizer que era esse o segredo? Caralho, que bizarro..."
"- É, mas agora você precisa nos ajudar."
"- Tá, tá. Já sei o que fazer."
"- O quê?"
"- Entrevista coletiva."
"- Você acha que isso resolve? Tá ficando louca?"
"- Se a entrevista for realizada na cabeça do Sr. Cobain, resolve."
Então, Marcelo respondeu a todos os emails de uma vez. No email, o guitarrista do Mileides dizia:
"Se quiserem conhecer toda a verdade por trás da nossa banda e nossos vínculos com o eterno Kurt Cobain, por favor, venham ordeiramente aos nossos estúdios na próxima quarta-feira, às 2h da tarde, horário de Urânia, e toda a verdade será revelada. Abraço, Marcelo."
Na hora e data marcada, todos estavam lá, e foram entrando, um por um, na portinhola que levava ao cérebro do angustiado, recluso e falecido líder do Nirvana. Ao chegar lá, espantados, não fizeram nenhuma pergunta à banda, pois a matrix de Kurt Cobain tinha a todos, e foi esperar que quarenta e dois minutos se passassem. Embasbacados, os jornalistas ficaram com um zunido de abelha nos ouvidos por dias e produziram matérias antológicas falando sobre tudo, menos sobre o segredo do Mileides e a tal portinhola.
Depois disso, através de uma denúncia anônima o cara do Kaip Country foi preso, acusado de fraude, calúnia, difamação e dano moral e, numa segunda reunião dos jornalistas, espantados não só com as vendagens do Mileides e das outras bandas grunge brasileiras, mas também com as vendagens das edições brasileiras dos discos do Hole (havia 15 datas agendadas para shows no Brasil), decidiram que todos negariam a idéia da passagem para a cabeça de Kurt, que seria trancada a cadeado e só o próprio Cobain poderia autorizar a entrada de alguém em seu cérebro.
O sucesso de público e crítica, além da natural simpatia, fizeram do Mileides uma das bandas mais cultuadas e respeitadas no cenário rock mundial, com inúmeros amigos no meio artísticos, como Dave Grohl, Eddie Vedder e Mick Jagger. A partir da disseminação da notícia de que o Mileides entrara na mente de Cobain, Dave Grohl entrou em contato com os amigos paulistas imediatamente, para saber maiores detalhes de como a história havia se desenrolado. A curiosidade de Dave fazia sentido.
O ex-baterista do Nirvana e atual líder do Foo Fighters, contou a real história da "morte" de Kurt Cobain e explicou um possível motivo para o contato com o Mileides através da portinhola. Dave disse que os boatos sobre o congelamento de Kurt eram verdadeiros, mas, à época, foram abafados pelos amigos mais próximos do líder da maior banda de rock dos anos 90 a pedido do próprio Kurt. Explicou também que o contato com o Mileides ocorreu de forma inconsciente por parte de Cobain, que foi atraído até a portinhola pelo som viciante do Mileides.
Com o relato de Dave, descobriu-se que houve o aluguel de uma câmara fria no estado de Michigan, nos EUA. E, pasmem, o grande líder da maior banda de rock dos anos 90 estava congelado esse tempo todo, numa espécie de "Vanilla Sky" do mundo real. Indagado sobre a questão que comovera todo o planeta, Dave Grohl, antigo baterista do Nirvana e atual vocalista do Foo Fighters, disse, em nota oficial, que guardara o segredo a pedido do próprio Kurt, assim como havia confidenciado aos Mileides.
Após o complexo e demorado processo de descongelamento, trariam Kurt Cobain ao Brasil em três meses. Pra fazer o quê, ninguém sabia. Só se sabia que Kurt devia saber toda a verdade e ouvir, agora consciente, o som do Mileides ao vivo. E se rolasse uma turnê de retorno do Nirvana, melhor ainda.
Ao ver o mito desembarcando no aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, Fernanda Lima não se conteve e gritou: "Kurt Cobain para presidente!", no que foi seguida de todos os jornalistas. E, seis meses depois, apenas nove meses após o descongelamento, esse problemático americano era empossado como o novo presidente do Brasil.
Fim
:: MaRRRcelo Urânia 15:37 [+] ::
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